quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Padres da Igreja: São Clemente Romano

Em 2007, o Santo Padre começou uma série de catequeses sobre os Padres da Igreja, grandes homens da Igreja entre o século II e VII, uma ótima oportunidade para conhecer alguns dos principais personagens da Igreja nascente.

Eu particularmente sempre me emociono de perceber o laço que me liga à estas pessoas, de saber que faço parte da mesmíssima Igreja e de ver claramente uma linha ininterrupta que nos une à eles e, através deles, aos Apóstolos e ao Cristo.

Diante disto eu resolvi reproduzir estas catequeses por aqui, começando por São Clemente Romano.



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São Clemente Romano

Queridos irmãos e irmãs!

Meditámos nos meses passados sobre as figuras de cada um dos Apóstolos e sobre as primeiras testemunhas da fé cristã, que os textos neotestamentários mencionam. Agora dedicamos a nossa atenção aos Padres apostólicos, isto é, à primeira e à segunda geração na Igreja depois dos Apóstolos. E assim podemos ver o início do caminho da Igreja na história.

São Clemente, Bispo de Roma nos últimos anos do primeiro século, é o terceiro sucessor de Pedro, depois de Lino e Anacleto. Em relação à sua vida, o testemunho mais importante é o de Santo Ireneu, Bispo de Lião, até 202. Ele afirma que Clemente "tinha visto os Apóstolos", "tinha-se encontrado com eles", e "ainda tinha nos ouvidos a sua pregação e diante dos olhos a sua tradição" (Adv. haer. 3, 3, 3). Testemunhos tardios, entre o quarto e o sexto século, atribuem a Clemente o título de mártir.

A autoridade e o prestígio deste Bispo de Roma eram tais, que lhe foram atribuídos diversos textos, mas a sua única obra certa é a Carta aos Coríntios. Eusébio de Cesareia, o grande "arquivista" das origens cristãs, apresenta-a nestes termos: "É transmitida uma carta de Clemente reconhecida autêntica, grande e admirável. Foi escrita por ele, por parte da Igreja de Roma, à Igreja de Corinto... Sabemos que desde há muito tempo, e ainda nos nossos dias, ela é lida publicamente durante a reunião dos fiéis" (Hist. Eccl. 3, 16). A esta carta era atribuído um carácter quase canónico. No início deste texto escrito em grego Clemente lamenta que "as improvisas adversidades, que aconteceram uma após outra" (1, 1), lhe tenham impedido uma intervenção imediata. Estas "adversidades" devem identificar-se com a perseguição de Domiziano: por isso a data de composição da carta deve remontar a um tempo imediatamente sucessivo à morte do imperador e ao final da perseguição, isto é, logo depois do ano 96.

A intervenção de Clemente ainda estamos no século I era solicitada pelos graves problemas em que se encontrava a Igreja de Corinto: de facto, os presbíteros da comunidade tinham sido depostos por alguns jovens contestadores. A lamentável vicissitude é recordada, mais uma vez, por santo Ireneu, que escreve: "Sob Clemente, tendo surgido um contraste não pequeno entre os irmãos de Corinto, a Igreja de Roma enviou aos Coríntios uma carta importantíssima para os reconciliar na paz, renovar a sua fé e anunciar a tradição, que há pouco tempo tinha recebido dos Apóstolos" (Adv. haer. 3, 3, 3). Portanto, poderíamos dizer que esta carta constitui o primeiro exercício do Primado romano depois da morte de São Pedro. A carta de Clemente retoma temas queridos a São Paulo, que escrevera duas grandes cartas aos Coríntios, em particular a dialéctica teológica, perenemente actual, entre indicativo da salvação e imperativo do compromisso moral.

Antes de tudo há o feliz anúncio da graça que salva. O Senhor previne-nos e dá-nos o perdão, o seu amor, a graça de sermos cristãos, seus irmãos e irmãs. É um anúncio que enche de alegria a nossa vida e dá segurança ao nosso agir: o Senhor previne-nos sempre com a sua bondade e a bondade do Senhor é sempre maior do que todos os nossos pecados. Mas é necessário que nos comprometamos de modo coerente com o dom recebido e correspondamos ao anúncio da salvação com um caminho generoso e corajoso de conversão. Em relação ao modelo paulino, a novidade é que Clemente faz seguir à parte doutrinal e à parte prática, que eram contempladas em todas as cartas paulinas, uma "grande oração" que praticamente conclui a carta.

A ocasião imediata da carta oferece ao Bispo de Roma a possibilidade para uma ampla intervenção sobre a identidade da Igreja e sobre a sua missão. Se em Corinto se verificaram abusos, observa Clemente, o motivo deve ser procurado no enfraquecimento da caridade e de outras virtudes cristãs indispensáveis. Por isso ele convoca os fiéis à humildade e ao amor fraterno, duas virtudes verdadeiramente constitutivas do ser na Igreja: "Somos uma porção santa", admoesta, "realizemos portanto tudo o que a santidade exige" (30, 1). Em particular, o Bispo de Roma recorda que o próprio Senhor "estabeleceu onde e de quem quer que os serviços litúrgicos sejam realizados, para que tudo, feito santamente e com o seu consentimento, seja aprovado pela sua vontade... De facto, foram confiadas ao sumo sacerdote as funções litúrgicas que lhe são próprias, aos sacerdotes foi pré-ordenado o lugar que lhes é próprio, aos levitas competem serviços próprios. O leigo está vinculado aos ordenamentos leigos" (40, 1-5: observe-se que, nesta carta do final do século I, pela primeira vez na literatura cristã, aparece a palavra grega "laikós", que significa "membro do laos", isto é, "do povo de Deus").

Deste modo, referindo-se à liturgia do antigo Israel, Clemente revela o seu ideal de Igreja. Ela é reunida pelo "único Espírito de graça derramado sobre nós", que sopra nos diversos membros do Corpo de Cristo, no qual todos, unidos sem separação alguma, são "membros uns dos outros" (46, 6-7). A clara distinção entre o "leigo" e a hierarquia não significa absolutamente uma contraposição, mas apenas esta ligação orgânica de um corpo, de um organismo, com as diversas funções. De facto, a Igreja não é lugar de confusão e de anarquia, onde cada qual pode fazer como lhe apetece em qualquer momento: cada um neste organismo, com uma estrutura articulada, exerce o seu ministério segundo a vocação recebida. Em relação aos chefes das comunidades, Clemente explicita claramente a doutrina da sucessão apostólica. As normas que a regulam derivam definitivamente do próprio Deus. O Pai enviou Jesus Cristo, o qual por sua vez enviou os Apóstolos. Depois, eles enviaram os primeiros chefes das comunidades, e estabeleceram que lhe sucedessem outros homens dignos. Portanto, tudo se realiza "ordenadamente pela vontade de Deus" (42). Com estas palavras, com estas frases, São Clemente ressalta que a Igreja tem uma estrutura sacramental e não uma estrutura política. O agir de Deus que vem ao nosso encontro na liturgia precede as nossas decisões e as nossas ideias. A Igreja é sobretudo dom de Deus e não nossa criatura, e por isso esta estrutura sacramental não garante apenas o comum ordenamento, mas também esta precedência do dom de Deus, do qual todos necessitamos.

Finalmente, a "grande oração" confere um alcance cósmico às argumentações precedentes. Clemento louva e agradece a Deus pela sua maravilhosa providência de amor, que criou o mundo e continua a salvá-lo e a santificá-lo. Assume um realce particular a invocação pelos governantes. Depois dos textos do Novo Testamento, ela representa a mais antiga oração pelas instituições políticas. Assim, após as perseguições os cristãos, sabendo bem que elas iriam continuar, rezam incessantemente por aquelas mesmas autoridades que os tinham condenado injustamente. O motivo é antes de tudo de ordem cristológica: é preciso rezar pelos perseguidores, como fez Jesus na cruz.

Mas esta oração contém também um ensinamento que guia, ao longo dos séculos, a atitude dos cristãos em relação à política e ao Estado. Rezando pelas autoridades, Clemente reconhece a legitimidade das instituições políticas na ordem estabelecida por Deus; ao mesmo tempo, ele manifesta a preocupação por que as autoridades sejam dóceis a Deus e "exerçam o poder que Deus lhes concedeu na paz e na mansidão com piedade" (61, 2). César não é tudo. Sobressai outra soberania, cuja origem e essência não são deste mundo, mas "lá de cima": é a da verdade, que se orgulha também em relação ao Estado pelo direito de ser ouvida.

Assim a carta de Clemente trata numerosos temas de actualidade perene. Ela é muito significativa porque representa, desde o primeiro século, a solicitude da Igreja de Roma, que preside na caridade a todas as outras Igrejas. Com o mesmo Espírito façamos nossas as invocações da "grande oração", onde o Bispo de Roma se faz voz do mundo inteiro: "Sim, Senhor, faz resplandecer sobre nós a tua face no bem da paz; proteje-nos com a tua mão poderosa... Nós te damos graças, através do sumo Sacerdote e guia das nossas almas, Jesus Cristo, por meio do qual te glorificamos e louvamos, agora, e de geração em geração, e por todos os séculos. Amém" (60-61).


Quarta-feira, 7 de Março 2007

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"Tuu totus ego sum, et omnia mea tua sunt"

4 comentários:

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Anônimo disse...

Obrigado pelo elogio. Infelizmente tenho moderá-lo por propaganda indevida. :-(

Fique com Deus!

Anônimo disse...

Caro Christiano, não vi o "elogio", mas imagino o nível elevadíssimo de civilidade com que o comentarista lhe brindou.

Aproveito para elogiar (de verdade) este seu belo texto sobre São Clemente Romano. Uma pérola a acrescentar ao (infelizmente) parco acervo de postagens sobre os Padres da Igreja. Um tema muito necessário nestes tempos de apostasia e diabólico anti-catolicismo.

E estendo o meu elogio ao seu blog. Tenho encontrado postagens excelentes aqui ao lado das demais muito boas. Com sinceridade, difícil é entender em quê um texto como este tanto incomoda alguém que lhe visita para lhe desferir indelicadezas.

Deus lhe abençôe!

Christiano O. Pereira disse...

Prezado Eduardo,

A Paz de Nosso Senhor!

:-) Não precisa imaginar não. Na verdade ele elogiou mesmo, para depois fazer propaganda indevida de uma faculdade de teologia, e não foi só neste tópico que isto aconteceu não, no mesmo dia foram uns cinco.

De qualquer forma já vi muitos comentários em que a civilidade passava longe, mas sinceramente não me incomodam. :-)

Quanto aos seus elogios devo dizer que são totalmente imerecidos. O texto realmente é excelente, mas porque é da lavra de Sua Santidade, não da minha :-), de qualquer forma é sempre bom saber que alguém acompanha as postagens com interesse, sobretudo quando participam com comentários sempre pertinentes, como é o seu caso.

Aliás, meu caro, quando teremos a oportunidade de ver um blog seu (se já existe me passe a url por favor), temos que acender mais luzes. Como você pode perceber, muitas vezes o que falta é um pouco de conhecimento básico e não boa vontade.

Fique com Deus e estamos às ordens.

um grande abraço!