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sexta-feira, 30 de maio de 2008

Artigo do Reinaldo Azevedo

Hoje li um artigo publicado ontem de madrugada pelo Reinaldo Azevedo, se tivesse visto antes nem teria escrito nada, teria só catado o post dele. Mas, antes tarde do que nunca.


AOS TRÊS MINISTROS DO SUPREMO QUE AINDA NÃO VOTARAM: células-tronco embrionárias, a demonização do catolicismo e a ética reduzida ao puro pragmatismo

Ontem foi um bom dia para eu proclamar uma das minhas máximas: o verdadeiro negro do mundo é o macho, branco, pobre, heterossexual e... católico! Por que “verdadeiro negro”? Porque ainda é a forma mais fácil de ser oprimido — pelo menos até eu emplacar o meu movimento em defesa dos “indiodescendentes” brasileiros e expropriarmos a “aldeiola” — é a versão indígena do quilombola — de Ipanema. O católico está prestes a se tornar uma “minoria sociológica” no Brasil — embora seja uma esmagadora maioria numérica. Mas se nota, sobretudo em boa parte da imprensa, o óbvio: o que vem da Igreja Católica não serve e, necessariamente, oprime as liberdades. Um católico está no último degrau da cadeia alimentar ideológica — ou no primeiro, a depender de por onde se comece a olhá-la. O católico é sempre o primeiro indivíduo a virar ração dos predadores da cultura ocidental.

Por que digo isso? O ministro Carlos Alberto Direito foi o primeiro a fazer restrições à pesquisa com células-tronco embrionárias, ao menos na forma como ela está expressa na Lei de Biossegurança. Escrevo este texto antes de os jornais entrarem na Internet. Não vou mudá-lo depois. Mas intuo que repetirão o que as TVs não cansaram de martelar ao longo do dia: “Carlos Alberto Direito, ligado à Igreja Católica...” Ele não é “ligado” a coisa nenhuma. É católico, assim como outros, ministros ou não, são protestantes, budistas, agnósticos, ateus. A lembrança, claramente, buscava, ainda que de modo contido, deslegitimar o seu juízo, fazendo-o caudatário de uma “organização”, tratada quase como entidade secreta. E, no entanto, se estava falando daquela que é um dos pilares — não porque quero, mas porque é — da civilização ocidental.

Três outros ministros também fizeram restrições às pesquisas — Ricardo Lewandowski, Cezar Peluso e Eros Grau. No caso deles, como nunca tiveram a “ousadia” ou o “topete” de se declarar crentes — nessa coisa tão exótica e estranha chamada Igreja Católica!!! —, não se procuraram razões escusas ou sub-reptícias para o voto. A determinação explícita, óbvia, escancarada, de demonizar a Igreja Católica ainda é maior do que a vontade de aprovar as pesquisas com células-tronco embrionárias. E, no entanto, eu lhes digo: ser católico não é ilegal, não é imoral e, creio, também não engorda: a gula é pecado.

A inveja que tenho dos sábios
Tenho algumas invejas nada agressivas, coisas leves mesmo: de quem sabe dirigir automóveis; de quem entende o jogo de beisebol; de quem anda em montanha russa... Sei que nunca farei nada disso. Só uma inveja realmente me corrói: a dos que estão certos de que a vida humana não começa na concepção. Invejo também a facilidade com que conseguem renunciar à lógica sem que se sintam flagrados numa falha intelectual. Explico-me.

Plante uma semente de laranja no útero de uma mulher, e, creio, o máximo que vai nascer ali é uma infecção. “Aquilo” — por ora, chamemos assim o embrião — que lá é depositado deve guardar as informações da espécie, ou não daria origem a um semelhante. “Aquilo”, para que frutifique (não emprego o verbo por acaso), precisa estar vivo. E ISSO NOS LEMBRA QUE AQUILO ADMITE PELO MENOS DOIS ESTADOS: VIVO E MORTO. Ninguém me acuse de estar dando “personalidade” àquilo, de estar fazendo vãs prosopopéias: até um pé de alface pode estar vivo ou morto, não é, senhores ministros? Acho que posso dar àquilo a nobreza que se dispensa a um pé de alface, não? Mas sigamos.

Se aquilo guarda todas as informações dos semelhantes de onde deriva, se aquilo se chama “embrião”, e se ele é um embrião humano, é preciso admitir que se está reivindicando a licença de, bem..., como dizer?, matar embriões humanos. Acho que não é, assim, tão chocante empregar para “aquilo” um verbo que cabe até às ervas daninhas: nós matamos ervas daninhas, afinal. Matamos até baratas. Logo, embriões também podem ser mortos — ainda que, à feição do ministro Ayres Brito, possamos preferir chamar aquilo de... sei lá, “aquilo”...

Essa tal vida humana
Acredito que a vida começa na concepção — e direi, adiante, por que isso, à diferença do que parece, nos protegeu ao longo da história e nos protege —, e se trata de uma posição bastante clara, de fácil compreensão. Sim, também é essa a opinião da Igreja Católica. Os cientistas e leigos favoráveis à pesquisa com embriões, obviamente, não podem concordar comigo ou com a Igreja — ou estariam admitindo a eliminação de vidas humanas para salvar... vidas humanas. Daí, então, o debate entre eles: “mas quando começa mesmo?” Bem, seja lá qual for o marco inicial que definam, indago: e que nome dar “àquilo” que vive — sim, é evidente que está vivo, ou não serve pra nada — entre a concepção e o que admitem ser o início da vida? Pré-vida? Semivida? Mais-ou-menos-vida? Quase-vida?

Se não têm uma resposta para a questão “quando começa a vida?’, preferem, igualmente, não dar nome nenhum “àquilo”. Aquilo é aquilo. E toda a argumentação se desloca, então, do que é uma questão ética para o universo do puro pragmatismo: “os embriões serão descartados mesmo; seu destino é o lixo”; “os embriões são considerados inviáveis depois de três anos” (há vários relatos demonstrando que não é assim): “os embriões não estão sendo produzidos para pesquisa; são a sobra do que é obtido para reprodução assistida”; “os casais não querem saber mais dos embriões”.

Observem, então, que o que requer uma definição ética se resolve apenas com respostas circunstanciais. Os quatro votos até agora favoráveis às pesquisas e contrários à ação de inconstitucionalidade fugiram da questão de princípio; dedicaram-se apenas às circunstâncias — à diferença dos quatro ministros que lhes fazem restrições: a estes, a questão de princípio interessou. Todo esse pragmatismo nos faz assim tanto bem?

De volta ao catolicismo
Volto à questão do catolicismo do ministro Direito, lembrado como uma “acusação”. Aquela periodização da história que opõe a Igreja Católica das trevas medievais às luzes que vieram antes (o helenismo) e que teriam vindo depois (o Iluminismo propriamente) é só uma tolice juvenil, que os professores de história insistem ainda hoje em inculcar nos estudantes. Boa parte das reservas à Igreja vem da suposição de que a religião tornou a vida da humanidade mais difícil; de que vida boa mesmo tinham os gregos e seu “antropocentrismo”, por exemplo — não é assim?

Na edição nº 1988 de VEJA, de 22 de dezembro de 2006, escrevi um longo texto intitulado “Somos todos cristãos”. A íntegra está aqui. Reproduzo um trecho:

"O sociólogo americano Rodney Stark sustenta que uma das raízes da expansão cristã é a caridade – elevada por Paulo à condição de primeira virtude. E a outra são as mulheres. Em The Rise of Christianity: a Sociologist Reconsiders History, Stark, professor de sociologia e religião comparada da Universidade de Washington, lembra que, por volta do ano 200, havia em Roma 131 homens para cada 100 mulheres e 140 para cada 100 na Itália, Ásia Menor e África. O infanticídio de meninas – porque meninas – e de meninos com deficiências era "moralmente aceitável e praticado em todas as classes". Cristo e o cristianismo santificaram o corpo, fizeram-no bendito, porque morada da alma, cuja imortalidade já havia sido declarada pelos gregos. Cristo inventou o ser humano intransitivo, que não depende de nenhuma condição ou qualidade para integrar a irmandade universal. As mulheres, por razões até muito práticas, gostaram.

No casamento cristão, que é indissolúvel, as obrigações do marido, observa Stark, não são menores do que as das mulheres. A unidade da família é garantida com a proibição do divórcio, do incesto, da infidelidade conjugal, da poligamia e do aborto, a principal causa, então, da morte de mulheres em idade fértil. A pauta do feminismo radical se volta hoje contra as interdições cristãs que ajudaram a formar a família, a propagar a fé e a proteger as mulheres da morte e da sujeição.”


É impressionante que a média do pensamento que se quer crítico, que defende com tanta energia que a religião fique longe dos debates sobre a ciência, pense na Igreja Católica apenas como fonte de restrições e proibições. A instituição cometeu alguns desatinos ao longo da história (será que a ciência nunca cometeu nenhum?), mas o fato inegável é que a inviolabilidade da vida está entre as causas originais de seu fortalecimento, de sua expansão e de seu enraizamento nas camadas populares — especialmente, sim, as mais pobres. Querer transformar esse legado em nada mais do que obscurantismo é, vejam só, uma forma de obscurantismo. E uma burrice também, decorrente da falta de informação.

Concluo lembrando que outros embates virão pela frente — como o aborto de anencéfalos e, fatalmente, o aborto ele-mesmo. Considera-se a legalização dessas práticas um ato de liberdade, uma “modernização” da legislação. Temo, sim, pela violação de um princípio. Chegará o tempo em que definiremos, muito pragmaticamente, quais vidas merecem ser vividas — já que nos damos o direito de definir o que é ou não vida, ainda que se resista a dar um nome àquela “não-vida” que, se viva não fosse, de nada serviria?

Aos ministros Celso de Mello, Marco Aurélio de Mello e Gilmar Mendes, uma modestíssima advertência: cuidado com o que há de trevas no pensamento dos monopolistas das luzes.

***

Vale a pena dar uma olhada nos posts seguintes, igualmente brilhantes, principalmente o "Brucutus Bucéfalos"


"tuu totus ego sum, et omnia mea tua sunt"

terça-feira, 27 de maio de 2008

E então, que caminho você escolheu?


Tem pouquíssimo tempo que escrevi sobre o primeiro passo necessário para começar a fazer alguma coisa contra a bagunça moral em que nos encontramos, e então, qual caminho você escolheu?

Amanhã (quarta-feira, 28/05/2008), o STF dará continuidade ao julgamento da (in)constitucionalidade da parte da Lei de Bio-segurança que trata do descarte dos embriões humanos e seu uso em pesquisas. Mais sobre o assunto você encontra aqui, aqui e aqui.

O assunto aqui é ainda mais grave do que a forma com que o tratei anteriormente. Lá eu tratava da dúvida da ciência quanto ao início da vida e de como ela deve ser suficiente para proteger o embrião, isso bastaria para convencer um debatedor honesto. Porém agora estamos no mundo real e a parte contrária não é nem um pouco afeita à Verdade. Veja algumas das mentiras deslavadas que contam para enganar os desavisados:

1- colocam no mesmo saco as pesquisas com células-tronco adultas e embrionárias, como se a declaração de inconstitucionalidade fosse fazer cessar as duas ou que a Igreja fosse contra as duas; Mentira: a Igreja é contra o uso de embriões, que é o mesmo tema da matéria que estará em julgamento.

2- dizem que as células-tronco embrionárias (CTE) são a esperança para a cura várias doenças, inclusive paralisia; Mentira: até hoje nada se conseguiu com as pesquisas com CTEs, enquanto as pesquisas com as adultas já deram em várias patentes de descobertas, inclusive a maior esperança para a cura da paralisia.

3- dizem que as CTEs são melhores que as CTAs porque são pluripotenciais (ou seja, podem se transformar em qualquer célula do corpo); Mentira: pesquisas recentes conseguiram fazer com que as CTAs se tornassem pluripotenciais, além de serem mais controláveis. Ademais, a iniciativa privada voltou toda a sua atenção para as CTAs depois de anos de dinheiro gasto inutilmente com as CTEs

4- dizem que após três anos os embriões congelados tornam-se imprestáveis; Mentira: há casos embriões implantados após 12 anos, os bebês estão vivos e saudáveis para quem quiser ver.

5- pretendem que a ciência já tenha determinado com certeza absoluta o marco inicial da vida; Mentira: coisa de desesperado. Não há qualquer tese válida sobre isto e nem mesmo concordância entre os cientistas, e nem poderia ser diferente, escolher aleatoreamente um momento não é definição científica é chute.

Acho que isso basta não é!? E ai, ainda não se decidiu? Então leia os links que indiquei.


"tuu totus ego sum, et omnia mea tua sunt"

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Escolha o caminho


Meu negócio agora é com quem leu os artigos citados no post anterior e se perguntou: "então tá, e o que eu posso fazer??".

Se você teve essa reação anime-se, tenho uma notícia boa e uma ruim. A boa é que ao menos vossa mercê ainda percebe que alguma coisa está muito errada, a má é que pode estar ficando mais pessimista do que eu, que acredito que a coisa está ruim mas acho que pode ter solução (mas por favor não se engane, no final das contas eu sou otimista, tenho que ser, sou cristão).

Não vou dar fórmula mágica, realmente não há muito a ser feito a curto prazo, mas você pode começar com um pequeno primeiro passo: comece a ordenar as coisas por seu verdadeiro valor e agir em conformidade com essa ordenação. P.ex: pare de dar à economia o valor que ela não tem. Ela NÃO é a coisa mais importante acontecendo, não é porque o Brasil cresce, que o risco para o investimento é menor, que o dólar caiu, que a bolsa subiu, que tudo está bem. Mais importante do que isso é saber como a elite no poder trata temas como Deus, a Vida, a Propriedade Privada, etc... em suma, como o direito natural tem sido tratado. Se mal, meu amigo, tudo vai mal ou está em passo acelerado para lá. Neste ponto, discussões sobre aborto, uso de células-tronco embrionárias, eutanásia, invasões de terra, etc, são importantíssimas e devem ser encaradas como tal.

Vamos para um caso concreto. Acompanhe o raciocínio, prometo não demorar: Se você encontra uma menina insconciente jogada na rua duas possibilidades passam na sua cabeça: 1- "ela está viva, tenho que ver o que é e ajudar" (vou descartar didaticamente o "ela está viva, mas e daí, não quero nem saber", porque se você pensa assim esse pequeno post não poderá fazer muita coisa); 2- "ela está morta. posso continuar meu trajeto sem parar". Quem em sã consciência pensaria em continuar sem parar? ou diria: "ACHO que ela está morta, vou tirar os orgãos dela, sem anestesia, para doar para outra pessoa"? A simples possibilidade de que haja vida naquele corpo inerte é suficiente para que não se abandone ou descarte a menina. Usando um outro exemplo: você enterraria um ente querido porque simplesmente ACHA que ele está morto?

Para qualquer pessoa com um senso moral saudável, tenha ela a crença que tiver, a vida humana é de tal forma valiosa e insubstituível que a simples dúvida de sua existência motiva todos os cuidados que a certeza dela motivaria. É assim porque temos consciência de que, por menor e mais frágil que seja, cada vida individual é única e infinitamente diferente de qualquer outra. Não é, p.ex., como uma laranja, que pode ser substituída por outra sem qualquer problema. Assim, ao vislumbrarmos a possibilidade de vida humana, vemos não "mais um", mas "um único", que deve motivar em nós todas as ações possíveis para salvá-lo, da mesma forma que os médicos empregam toda sua ciência em curar aquele paciente determinado, pois não adianta deixá-lo morrer e engravidar a patroa em casa para substituir, a matemática aqui não funciona.

Em outras palavras, a vida individualizada em cada pessoa é tão infinitamente importante que é absurdo deixá-la a mercê da sorte de que a minha suposição seja a opção correta. E aqui entra um tema que ocupa os holofotes atualmente, os embriões humanos.

Ora, se a ciência não pode especificar o momento em que a vida se inicia com total exatidão, a simples dúvida sobre o embrião ser ou não vida já é mais do que suficiente para salvaguardá-lo. Em temas dessa magnitude um simples: "ah, pode ser, mas e daí!?", já é monstruoso, já demonstra como a vida humana deixou de ter o valor que ela merece.

Não quero prolongar demais o post, por isso apenas cito algumas conseqüências, talvez não imediatas mas certamente necessárias, desta relativização: eutanásia, discriminações de toda sorte, abortos, violência, eugenia, e todas as doutrinas que pregam que a morte de alguns não faz diferença. (muito embora saiba que essa última conseqüência é de fato também a causa, mantenho-a aqui porque seu crescimento é, geralmente, um dos objetivos de quem propõe a desvalorização da vida humana).

E então, vai passar pelos milhares de meninos e meninas sem voz sem nem indignar-se? ou vai dar à vida o valor que ela merece?


"tuu totus ego sum, et omnia mea tua sunt"